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por Dina Martins, em 08.09.20

A minha Gata Azul

A minha gata azul tem poderes mágicos que só eu conheço! Aparentemente um felino igual a tantos outros gatos domésticos. Quentinha, fofinha, ainda pequenina e de pelo muito macio. Mas de noite, quando todos dormem, a magia acontece. Os seus olhos redondos, muito brilhantes e vivaços, irradiam uma luz de um verde tão intenso que ofusca a quem consegue ver; e o seu pelo cinza reveste-se de uma bolha de luz azul real, que a envolve e a faz flutuar. Nesta nave azul ela viaja para mundos completamente desconhecidos à vista humana.

Na outra noite, estava eu sem sono, quando ouvi um zumbido, acompanhado de um reflexo azul brilhante, vindo da cozinha. Levantei-me, curiosa com o sucedido e fui ver o que se passava. Qual não foi o meu espanto ao vê-la suspensa, envolta naquela bolha de luz! Imediatamente apercebeu-se da minha presença, tentando dissuadir-me desta visão; “tu estás a sonhar…”, disse ela, “… volta para o teu quarto que amanhã tudo será como antes.” Escancarei a minha boca e esbugalhei os olhos de tão estupefacta que fiquei! “Mas tu falas?!”, perguntei-lhe atónita. “Não preciso falar para comunicar contigo; só tu consegues ouvir-me aqui e agora.”, respondeu ela assertivamente. “Para onde vais a estas horas? Que luz é essa? Quem és tu?” As perguntas choviam na minha mente, sem sequer parar para questionar sobre a minha lucidez. “Tem calma…”, disse ela, “… eu viajo e volto todas as noites e ninguém se apercebe. Queres vir comigo hoje? Sinto que não vou conseguir adormecer-te.” “Para onde vamos?”, perguntei eu sem pôr em causa a lógica de tudo o estava a acontecer. “Guarda a tua curiosidade para daqui a um instante, quando lá chegarmos…”, respondeu ela, “… fecha os olhos, respira fundo e confia…”, continuou. Fechei os meus olhos por breves segundos e, sem saber muito bem como, lá estávamos as duas a flutuar no meio de um vale verdejante, suspenso no ar, para o centro do qual confluía a água de imensas cascatas que o circundavam e, no centro, mesmo por baixo, existia um enorme lago de água cristalina. Do interior do meu casulo luminoso conseguia sentir a brisa húmida e fresca dos milhares de gotas que salpicavam tudo em redor. A vegetação era densa e luxuriante; ouvia-se também o som longínquo do chilrear de diferentes aves. Todo o cenário parecia tão idílico e sereno, algo irreal.

 “Que sítio é este?”, perguntei. A sua resposta foi tão calma quanto o ambiente que nos envolvia: “Este é o meu verdadeiro mundo, o meu planeta… foi daqui que eu vim, para fazer parte da tua vida. É aqui que regresso todas as noites para recarregar energias e diluir os ódios, raivas, frustrações ou desilusões, tristezas e vitimizações, que absorvo enquanto estou convosco, humanos, levando comigo amor e bem-estar aos vossos corações. Aqui vivemos em harmonia e comunhão com a natureza; retiramos dela apenas o que precisamos e oferecemos a matéria dos nossos corpos, quando desencarnamos, em retribuição e gratidão de tudo o que nos foi doado durante a nossa vida terrena. Vivemos segundo as leis da abundância, gratidão e respeito. Todas as nossas ações, enquanto habitamos convosco, têm um propósito universal: o bem supremo. A vossa perceção humana faz de nós simples animais domésticos, irracionais que, por vezes, destroem ou sujam os vossos bem materiais, enchem-vos a roupa de pelos, ensurdecem-vos com os miados, latidos ou outros ruídos. Na realidade tentamos comunicar convosco, mas os vossos sentidos estão obstruídos por coisas mundanas; vocês simplesmente escolheram não acreditar e educam-se uns aos outros desta forma. Como não nos “ouvem”, nós espelhamos algo que vocês preferem ser, inconscientemente, o que vos desperta exatamente as emoções que deturpam os vossos sentidos; assim podem expurgar tudo aquilo que adultera a vossa perceção.”

“O quê?! Todos os animais são como tu?!”, exclamei, “então porque é que deixaste o teu mundo para te refugiares no meu?” Novamente respondeu neutralmente, sem julgamentos ou exasperações: “Se parares de racionalizar e escutares o que diz o teu espírito, vais encontrar as respostas que procuras. Sim, todos os animais domésticos nasceram no vosso planeta com a missão, não só de vos proteger como também de vos ensinar o que é viver em amor, despertos para a intuição inata que possuem. É esse o nosso propósito, ajudar-vos a encontrarem o vosso caminho, a missão a que se propuseram enquanto seres humanos. Como poderás deduzir, se nos restringíssemos a viver neste pequeno paraíso deixaríamos de ter propósito para viver, ficaríamos estagnados, tal como vocês e, em pouco tempo, a energia deixaria de fluir, tudo deixaria de ser como tu vês agora. É esta a nossa história e aceitamos a nossa função com gratidão e resiliência, mesmo que tenhamos de sofrer por doença, abandono ou maus tratos. Fazemos tudo por amor a vocês, para que cresçam e evoluam a vibrar de acordo com a vossa essência.”

Fiquei de tal forma emocionada com tudo o que escutei que não consegui proferir nem mais uma palavra.

“Está na hora de regressarmos…”, transmitiu-me, “… fecha os olhos, respira fundo e confia. Este será o nosso segredo; nenhum outro tutor, até então, teve o privilégio de viajar connosco. Na generalidade, ainda não estão preparados para acreditar. Até trazer-te foi arriscado.”

Fechei os olhos, sem questionar; num ápice de segundo, quando voltei a abri-los, vislumbrei o lusco fusco da manhã, que começava a entrar pela pequena greta da persiana mal fechada do meu quarto. A minha gata azul dormia tranquilamente a meus pés, enrolada em si própria. Terá sido um sonho? Fica ao critério de quem acreditar…

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publicado às 18:39


por Dina Martins, em 24.11.19

Natal

E de repente, sem nos apercebermos muito bem, estamos a caminhar a passos largos para uma época mágica, o Natal. 

Os centros comerciais já estão decorados a rigor, os hipermercados apresentam corredores inteiros repletos de chocolates, outras guloseimas e brinquedos. As decorações de Natal já iluminam as ruas e avenidas de cada município. Tudo a postos para celebrar o dia simbólico do nascimento de Jesus. 

Nesta época de azáfama, a maioria das pessoas sente-se temporariamente mais feliz, até caridosa, emocionalmente confortável. Parece que durante este período as preocupações ficam de lado, pois o que interessa é oferecer o brinquedo "xpto" ao filho, de modo a compensar parte do tempo que não teve para lhe dar atenção; o telemóvel topo de gama ao marido, em troca do seu amor e de todos os anos que têm partilhado juntos; e receber aquele perfume caríssimo, que o marido lhe oferece como prova do seu amor. Na noite de Natal todos se sentam à volta da mesa, ansiando a meia noite para abrir as prendas e confirmar se o tão desejado presente é aquele, o tal, que o ou a faz sorrir.

No meio de todo este corrupio de compras, "black friday" e outras promoções, onde é que foi parar a celebração ao "menino Jesus?! Alguém se lembrou dele ou do motivo da celebração do Natal?

Passada a "época das festas", lá voltamos nós à rotina de sempre; as caras sisudas, as contas por pagar (ai as contas!) e os milhões de preocupações que uma cabeça pode conter. E a alegria do Natal? Para onde foi o espírito natalício e a boa disposição? Tudo isto porque pensamos que pudemos vir buscar cá fora o que não temos aqui dentro. Não são as luzes das decorações de Natal que nos iluminam, mas a luz interior que temos e devemos cultivá-la para que não se apague. Não é por oferecermos as prendas mais caras que cultivamos o amor dos outros, se não tivermos cá dentro amor por nós mesmos. 

Natal significa muito mais do que aquilo a que a sociedade consumista o reduziu. E nós limitamo-nos a seguir cegamente, ano após ano, a ilusão materialista imposta pelo comércio. 

Experimentemos este ano mudar as rotinas do Natal. Lembremo-nos daquele Natal de quando éramos crianças, ou aquele que os nossos avós nos contavam. Ainda me lembro do prato de azevias que as minhas tias nos ofereciam todos os anos; ainda quentinhas chegavam a minha casa, cobertas por um simples guardanapo de papel, acabadinhas de fritar. Confecionadas com afeto para deliciar os entes queridos. Ou as filhoses oferecidas pela "vizinha", que carinhosamente nos desejava um santo Natal. Não que na minha casa a minha mãe não fizesse azevias (as "trutas", como ela lhes chamava), filhoses e outras iguarias. Mas aquelas oferendas eram feitas com amor, eram sinónimo de partilhar aquilo que cada um sabia fazer de melhor, de agradecer os baldes de sardinhas e cavalas que o meu pai trazia durante o ano, para distribuir por todos eles. Brinquedos, é claro que recebia, um, aquele pelo qual esperava o ano inteiro. E os meus olhos brilhavam, maravilhados, quando abria, na manhã seguinte, a tão esperada prenda. E os bonequinhos de chocolate, envolvidos em "prata". Tinham várias utilidades; serviam para enfeitar a árvore de natal, eram comestíveis e a película prateada era enrolada à volta das tangerinas, que substituíam os chocolates, na árvore de natal. 

Experimentemos este ano recuperar as tradições. Tentemos pôr mãos à obra e ofereçamos aquilo que de melhor sabemos fazer: um bolo, biscoitos, enfeites de Natal, botas de lã, bases para copos, ou simplesmente um lindo postal. Ensinemos as nossas crianças a valorizar o tempo de qualidade, a construir estes presentes, a oferecer um brinquedo a outra criança que não o tenha. 

Se não tiver jeito para fazer as próprias prendas, então compre o bolo ou os bombons à "D. Joaquina", o brinquedo, de madeira, ao "Sr. António", o saco para o pão à "D. Gertrudes". De certeza que encontrará prendas e pessoas como estas, genuínas, onde quer que habite. Em vez de gastar centenas de euros nas grandes superfícies, a enriquecer ainda mais aqueles que já o são, valorize os produtos locais.  

Na ceia da noite de Natal, valorizemos a companhia dos que lá estão; pratiquemos jogos tradicionais em família, em vez de cada um estar a olhar para um ecrã diferente à espera da meia noite e da tão esperada abertura das prendas. E, quando chegar as zero horas do dia vinte cinco de dezembro, abracemo-nos genuinamente e sejamos gratos por termos aqueles que caminham ao nosso lado nesta vida. Tenho a certeza de que os nossos Natais passarão a ter mais significado, a trazer ao de cima tudo o que o ser humano tem de melhor e que durante tantos anos tem andado esquecido. Voltemos a criar um Natal de afetos, de família, de compaixão. É possível se quisermos, se nos tornarmos conscientes. 

Mesmo para aqueles que não celebram o Natal, por N motivos, podem sempre celebrar a vida, os laços afetivos, a família, no dia vinte cinco de dezembro ou em qualquer outra data do vosso calendário. 

Quando atribuímos significado ao que temos e agradecemos pela imensa abundância que o Universo nos oferece, tudo fica mais fácil, mais leve, mais alegre e duradouro. 

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publicado às 21:44