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por Dina Martins, em 29.10.19

Kira

Caminhando pela densa floresta kira observava atentamente. Eram imensas as árvores; a floresta transbordava de uma enorme variedade de formas de vida. A precisão dos seus movimentos era imprecionante! Que andaria a observar?

Uma gazela pára para se alimentar e Kira move-se silenciosamente por entre a vegetação para se aproximar do animal. . Ao longe, outros membros da sua tribo observam-na. Estarão a avaliá-la, ou a aprender as suas técnicas? Será ela capaz de obter alimento para a sua tribo? Uma jovem mulher,  magra, de longos cabelos negros, olhos escuros, pernas esguias, não muito alta. 

Kira acabou por matar a gazela e, imediatamente, ajoelhou-se junto do animal, já sem vida. Em ritual de agradecimento, Kira ergue as mãos para o céu e expressa gratidão ao espírito daquele ser por ter dado a vida para suprir a alimentação de toda uma tribo. Logo a seguir os restantes indígenas aproximam-se e levam o animal para a aldeia. Kira segue-os um pouco mais atrás. Superou mais uma prova. 

Chegada à pequena aldeia, as crianças rodeiam-na entusiasmadas. Querem ouvir a sua história. Alguns adultos que por ali passam também se aproximam para a ouvir. Kira transmite sabedoria e segurança. Salienta a importância e o respeito por aquela floresta que os acolhe, o respeito por todos os seres vivos que ali coabitam e a importância da sua preservação. Reforça a necessidade de caçar apenas para a sobrevivência. As crianças ouvem-na silenciosamente;  o brilho dos seus pequenos olhos castanhos expressa respeito e admiração. Após transmitir tudo o que lhe ia no coração, kira retirou - se para a sua tenda feita de palha e ali, sozinha, o seu semblante mudou. Parecia preocupada, ansiosa, insegura. As lágrimas começaram a escorrer-lhe pelo rosto. Estaria ela à altura de assumir tamanha responsabilidade? Os seus medos assombravam-lhe a mente. Porquê ela a escolhida se se existem outros bem mais velhos, com mais experiência de vida? 

À entrada da sua palhota a Anciã da tribo preparava-se para entrar. Uma mulher já muito idosa, de longos cabelos brancos e profundos olhos negros, rodeados por marcas da idade. Aproximou-se de kira com dificuldade. Felicitou-a pelos seus feitos  e frisou a sua sabedoria, coragem, bom senso e magnetismo pessoal. Apesar de ser mais jovem do que muitos dos elementos daquela tribo, Kira fora escolhida pela Anciã para a suceder quando chegasse a sua hora de deixar este planeta.

A Anciã tinha a certeza da sua escolha. A sua longa experiência de vida e a sua infinita sabedoria nunca a deixaram tomar uma decisão errada. Kira era a pessoa indicada para proteger e orientar a sua tribo, garantindo a sua sobrevivência.

A Anciã pousou a mão no ombro de Kira para acalmá-la. "Confia em ti", disse, "acredita em ti, nas imensas potencialidades com que nasceste; confia Kira." Após transmitir esta mensagem, a Anciã retirou-se para descansar; estava já muito debilitada.

Alguns meses depois, o inevitável aconteceu. Kira assumiu o seu papel na tribo. Todos a aceitaram e respeitaram.

Kira nunca constituiu a sua própria família. A sua prioridade foi garantir a sobrevivência e o bem-estar da sua tribo. Treinava os mais novos e transmitia-lhes valores fundamentais, de respeito e gratidão. Apesar de nunca ter experienciado a maternidade, Kira protegia arduamente as mães e crianças da sua tribo. Kira nunca teve a sua família mas fazia parte de todas as famílias daquela comunidade. O seu propósito fora conseguido. Kira envelheceu rodeada de amor, compaixão, respeito, por tudo o que foi, é e será até ao seu último dia neste planeta, grata por cada minuto da sua maravilhosa vida.

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publicado às 17:13


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